AVENTURAS NA INDONÉSIA

Queridos Amigos,

Muitas coisas aconteceram: várias boas, algumas nem tanto, outras que deixaram a dor de uma saudade que só será aliviada em “outra vida”.

Estamos na Indonésia há pouco mais de 2 meses. Atravessamos a fronteira com a Malásia em Bornéo, ilha que pertence a 3 países: 73% para a Indonésia, 26% para a Malásia e quase nada para Brunei.

Ficamos pouco mais de 2 meses em Bornéo entre a Malásia e Brunei. Na parte malasiana, fizemos ótimos mergulhos na ilha de Sipadan, com direito a muitos tubarões, barracudas e peixes enormes. Caminhamos pela floresta, fizemos uns passeios de barco pelo rio Kinabatangan, onde pudemos avistar na natureza orangotango com filhote, outra espécie de macaco que só existe em Bornéo, com um nariz enorme e um barrigão que parece que vive o dia todo tomando cerveja e vários pássaros, em especial uma espécie rara, da família do tucano. Visitamos também uma reserva de orangotangos e segundo o Léo, ficamos cansados de tanto “pentear macaco”.  Em Brunei, foi uma novela. O país é minúsculo, mas muito rico cheio de poços de petróleo. Só para ter uma idéia, o litro do combustível por lá custa vinte centavos de dólar. Por algum motivo que não conseguimos descobrir, o Brasil é um dos poucos países que os cidadãos precisam de visto e não foi nada fácil. Custou-nos tempo, paciência e até um stress na fronteira, mas finalmente conseguimos chegar.  A riqueza era facilmente identificada pelas ruas limpas e impecáveis, as mesquitas, museus e prédios públicos muito bem montados e conservados, as pessoas muito alegres e educadas. Mesmo assim, ainda tem o clima asiático com ótimos mercados noturnos e diurnos, comida deliciosa e até taxistas, tanto de carro quanto dos barcos, agradáveis (isso é difícil, hein).  Parte da população vive em vilas sobre a água, apoiadas em palafitas, inclusive as escolas e para chegar até lá só através dos barquinhos. Realmente gostamos bastante de Brunei.

Nossas expectativas com relação à Indonésia eram dúbias: por um lado esperávamos muita beleza natural, por outro esperávamos um povo não muito agradável, bem ligados ao dinheiro. Nossa viagem desde a Malásia até chegarmos ao primeiro destino na Indonésia demorou quase 3 dias, por causa das dificuldades nos transportes: vários barcos, carro, mais carro, mais barco e, finalmente, chegamos a Pulau (ilha) Derawan.

 

A chegada à ilha já foi surpreendente. Um lugar pequeno, com as casas em palafitas sobre o mar de um azul tão claro que é difícil descrever. Apaixonamo-nos por Derawan: tínhamos um bangalô bem espaçoso, com muitas janelas, 2 sacadas, uma na frente para o nascer do sol com mesa e cadeiras, onde tomávamos chá e recebíamos a visita diária de algumas tartarugas enormes, no que eu chamava de “meu jardim”, bem em frente a “nossa casa”, sem contar os outros peixes exóticos que nos presenteavam com sua presença. As pessoas locais em Derawan são um encanto e algumas até nos adotaram, nos dando água de coco e biscoitos caseiros o tempo todo. Ninguém fala inglês, com exceção de DarJohn, irmão da dona do nosso bangalô, que trabalha para a WWF na proteção das tartarugas marinhas. Ficamos mais de duas semanas por lá, e só fomos embora porque o dinheiro acabou (tínhamos pelo menos 6 horas de viagem até chegarmos a um banco, e mais 6 horas de volta). Aquela ilha foi perfeita para nós: fizemos snorkel em uma ilha vizinha, num lago salgado cheio de águas-vivas não venenosas e uns corais muito exóticos que ficamos maravilhados. Em outra ilha fizemos snorkel com raias mantas, uma infinidade delas, em apenas uma caída na água, contei de uma só vez 35 gigantes, sem contar os outros peixes e tartarugas enormes que estavam pelo meio, um sonho. Durante a noite, várias vezes fomos “trabalhar” com DarJohn: algumas vezes esperando as tartarugas depositarem seus ovos, que deveriam ser removidos e trocados de lugar evitando assim de alguns ilhéus os pegarem para consumo. Outras vezes ajudávamos a libertar as tartarugas bebê que nasciam e precisavam de auxílio para achar o caminho do mar. Em uma das vezes, libertamos 103 bebês! Não haviam muitos viajantes por lá. Durante os nossos 10 primeiros dias, ficamos eu, Léo um suíço pescador que também se apaixonou pelo lugar. Mesmo com tantas atividades, nosso tempo foi precioso. Pensamos muito nos nossos projetos e só não trabalhamos mais porque não havia telefone ou internet. Saímos de Derawan com um aperto enorme no coração. Eu chorei muito e acho que o Léo disfarçou, mas também derramou algumas lágrimas.

Nosso próximo destino na Indonésia foi a ilha de Sulawesi, a oeste de Bornéo. Tivemos algumas paradas técnicas no caminho (leia-se dificuldades de transporte). Em Sulawesi estávamos interessados, entre outras coisas, em uma região chamada Tana Toraja, onde acontecem rituais fúnebres muito tradicionais, que duram semanas e a pessoa, normalmente já está tecnicamente morta há anos, mumificada dentro da própria casa e participando das atividades diárias da família. Fizemos uma preciosa amizade com uma garota local, Lia, vívida e disposta a contar sobre a tradição dela, assim como saber sobre a nossa. As cerimônias em Toraja são muito complexas e preciso de um “capítulo” inteiro para descrever tudo que vivemos nos 8 dias que estivemos por lá.

 

Após mais alguns dias de viagem, chegamos a Ampana, porto que nos levaria a um arquipélago, Togean, no meio de Sulawesi, onde o único meio de comunicação é através de mensagens enviadas por barcos que circulam entre as ilhas 2 vezes por semana. Porém, antes de seguirmos para as Togean, resolvemos fazer uma trilha para visitarmos umas tribos nômades que ouvimos falar muito por acaso (outra história longa, que precisa de mais um capítulo). Dormimos duas noites na floresta, uma delas na beira do rio e outra com uma família. Disseram-nos que éramos o sétimo grupo que passava por lá (grupos pequenos, um deles tinha apenas uma pessoa, que nos contou sobre a tribo), mas eu tive certeza que alguns deles nunca tinham visto estrangeiros na vida, muito menos uma câmera fotográfica. Vou contar rapidamente o caso de uma mulher que me emocionou. Eu estava andando pela beira do rio, tentando achar uma suposta cachoeira para tomar meu banho quando vi uma criança sentada no chão com um tecido enrolado ao corpo. A criança me olhou assustada. Aproximei-me com muito cuidado, tirei uma foto minha, mostrei para a menina, em seguida tirei uma foto dela e quando mostrei a menina começou a chorar. Poucos segundos depois, aparece a mãe, mais assustada que a filha. Fiz exatamente a mesma coisa, quando tirei minha foto e mostrei a ela, ela esboçou um sorriso assustado. Em seguida tirei uma foto dela e quando mostrei o display, a mulher arregalou os olhos e começou a tocar no próprio rosto. Acredito que ela nunca havia visto o próprio reflexo. A região onde eles vivem é linda e tem muita água corrente, mas nenhuma água calma que possa refletir as imagens. Foi um momento marcante, nem tenho palavras para expressar exatamente o que senti.

Voltamos a Ampana e continuamos nossa jornada até as ilhas Togean. Ficamos uma semana em uma ilha chamada Kadidiri, uma das mais desenvolvidas, foi difícil ficarmos menos tempo. Seguimos depois para a ilha de Malengue, mais remota. Apenas dois barcos públicos por semana passam por lá, um verdadeiro paraíso que reuniu o mar com aquele azul perfeito e tranqüilo, uma baía onde nadávamos cedinho e no fim da tarde, uma vila bahjo (vila sobre palafitas) e uma floresta, onde podíamos fazer caminhadas para ver os animais. Ficamos por lá mais uma semana, sem contato algum com o mundo exterior.

Durante nossa estadia em Malengue, comecei a sentir que estava com febre todas as tardes, tinha dores e cabeça e pelo corpo, que passavam com apenas um paracetamol. Eu tinha certeza que tinha dengue e o tratamento era apenas remédio e descanso. Li muito e fiquei na rede do nosso bangalô vendo o mar lindo a minha frente. Quando chegamos a terra novamente, já fazia 7 dias que a febre aparecia e nos últimos dias estava pior. Tive a certeza que meu auto-diagnóstico estava errado e quando o médico teve que ser chamado na pousada que estávamos, viu minha febre de 40 graus, pediu um teste e diagnosticou malária. Fui medicada e o plasmódio morreu logo nos primeiros dias. Porém, tive uma complicação talvez por causa dos medicamentos e estou hospitalizada. Tenho melhorado e espero sair daqui rapidinho. De qualquer forma, estando aqui quietinha, tive a oportunidade de contar um pouco da nossa vida nos últimos tempos. E como diz o Léo: viajante de aventura que se preza, tem que pegar uma malariazinha. (rssss)

Seguem umas poucas fotos que não fazem jus ao que vivemos, mas dá para ter uma noção.

Morro de saudade. Beijos com muito carinho.

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